CardiologiaPrevenção primária

Guia Prático: como usar o Escore PREVENT (E o que dizem as novas Diretrizes Brasileiras 2025)

O Escore PREVENT deixou de ser apenas uma calculadora e passou a orientar decisões clínicas centrais nas novas Diretrizes Brasileiras 2025, definindo quando tratar, quais metas alcançar e qual terapia escolher — especialmente na hipertensão, dislipidemias e obesidade.

O cenário da prevenção cardiovascular no Brasil foi atualizado. O novo escore PREVENT, desenvolvido pela American Heart Association (AHA) , foi oficialmente adotado pelas principais sociedades médicas brasileiras (incluindo Sociedade Brasileira de Cardiologia – SBC, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – SBEM, Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade – ABESO, e Sociedade Brasileira de Hipertensão – SBH) em suas novas diretrizes de 2025.

Este escore substitui as calculadoras anteriores e passa a ser a ferramenta preferencial para a estratificação de risco em pacientes na prevenção primária.

A grande mudança do PREVENT é sua abordagem integrada, estimando o risco cardiovascular ao incorporar fatores metabólicos e renais. Ele exclui a variável etnia, torna a função renal (eGFR) um componente obrigatório e permite a inclusão opcional de HbA1c e relação albumina-creatinina (UACR).

Mas, além de calcular um número, como o PREVENT muda a conduta no consultório? As novas diretrizes brasileiras dão a resposta, e o escore passa a ser fundamental para definir QUANDO tratar, QUAIS as metas e COMO tratar.

1. O PREVENT no Manejo da HIPERTENSÃO (Diretriz de HA 2025)

A nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial (DBHA 2025) coloca o PREVENT no centro da avaliação inicial.

Quando aplicar?

A diretriz recomenda a estratificação de risco para todos os pacientes com Pressão Arterial (PA) 130/80 mmHg. A avaliação clínica, exames complementares e a aplicação do escore PREVENT são os passos seguintes obrigatórios, conforme figura 1.

Orientação da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025. Note a importância do escore PREVENT para definição de conduta.
Figura 1: Orientação da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025. Note a importância do escore PREVENT para definição de conduta. Fonte: Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Armstrong AC, Mulinari RA, Feitosa ADM, Mota-Gomes MA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq. Bras. Cardiol. 2025;122(9):e20250624.

Como o PREVENT define o tratamento?

A maior mudança está na abordagem da pré-hipertensão (PA no consultório entre 120-139 e/ou 80-89 mmHg)8888.

Para esses pacientes, a diretriz recomenda o início de tratamento medicamentoso (além das medidas não medicamentosas) se eles forem classificados como de “alto risco CV”. O PREVENT é a ferramenta utilizada para identificar esse alto risco.

Em resumo (Hipertensão): O PREVENT não é mais apenas um “número”; ele define se o paciente pré-hipertenso deve ou não iniciar a terapia farmacológica.

2. O PREVENT no Manejo da ATEROSCLEROSE e DISLIPIDEMIA (Diretriz de Dislipidemias 2025)

A nova Diretriz de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose (SBC 2025) é talvez a que mais profundamente integra o PREVENT, usando-o para definir as metas lipídicas.

Como o PREVENT define as metas de LDL-c?

O escore PREVENT (estimativa de 10 anos) agora determina a meta de LDL-c e não-HDL-c para pacientes em prevenção primária:

  • Risco Baixo (PREVENT < 5%): Meta de LDL-c < 115 mg/dL.
  • Risco Intermediário (PREVENT 5% a <20%): Meta de LDL-c < 100 mg/dL.
  • Alto Risco (PREVENT >20%): Meta de LDL-c < 70 mg/dL.

A etapa crucial: Reclassificação do Risco

A diretriz enfatiza que o PREVENT é o início da estratificação. Para pacientes classificados como Risco Intermediário pelo escore, o médico deve ativamente procurar “fatores agravantes” para reclassificar o risco:

  1. Fatores Agravantes: História familiar de DCV prematura , doenças inflamatórias crônicas (ex: artrite reumatoide, psoríase, lúpus), síndrome metabólica, ou biomarcadores como Lp(a) acima de 50 mg/dL.
  2. Aterosclerose Subclínica: A presença de Escore de Cálcio Coronário (CAC) > 100 ou placas em carótidas (<50%).

Se um paciente de Risco Intermediário pelo PREVENT apresentar um desses fatores (ex: CAC > 100), ele é reclassificado para Alto Risco e sua meta de LDL-c muda de <100 para <70 mg/dL.

  • Em resumo (Aterosclerose): O PREVENT define a meta de LDL-c, e os fatores agravantes (especialmente CAC e Lp(a)) refinam essa decisão, principalmente nos pacientes de risco intermediário.

As classificações de muito alto risco e risco extremo, com metas de LDL-c menor que 50 mg/dL e 40 mg/dL respectivamente, são definidas pelo histórico de doença ateroesclerótica ou doença cardiovascular estabelecida ou CAC >300 UA, conforme tabela 1.

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Tabela 1: Categorias de risco para definição de meta terapêutica. Note a importância do escore PREVENT na definição em pacientes de prevenção primária. Fonte: Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, Zimerman A, Cesena FHY, Sposito AC, Santos RD, et al. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq. Bras. Cardiol. 2025;122(9):e20250640.

3. O PREVENT no Manejo da OBESIDADE (Diretriz de Obesidade 2025)

A Diretriz Brasileira de Obesidade de 2025 (ABESO/SBC) utiliza o PREVENT não apenas para estratificar, mas para direcionar a escolha da farmacoterapia.

Quando aplicar?

O escore é aplicado em pacientes com sobrepeso ou obesidade, na faixa etária de 30-79 anos e com IMC < 40 kg/m².

  • (Nota: Pacientes com IMC > 40 kg/m2 já são automaticamente classificados como “Risco Alto” para Insuficiência Cardíaca, sem necessidade do escore), conforme figura 2.
Figura 2: Avaliação de risco cardiovascular em pacientes com sobrepeso ou obesidade. Fonte: Saraiva JFK, Valerio CM, Rached FH, Sande-Lee SV, Giraldez VZR, Valente F, Drager LF, et al. Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas. 2025;00(00):00.

Como o PREVENT define o tratamento?

A diretriz enfatiza a importância dos fatores metabólicos, recomendando que o PREVENT seja aplicado “no modo que inclui o valor da HbA1c”.

O resultado do escore (Risco Limítrofe, Intermediário ou Alto)  é usado para selecionar o tratamento farmacológico (conforme Figura 3):

Figura 3: O Resumo das intervenções terapêuticas para obesidade e suas complicações em relação às categorias de risco na obesidade: Fonte: Saraiva JFK, Valerio CM, Rached FH, Sande-Lee SV, Giraldez VZR, Valente F, Drager LF, et al. Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas. 2025;00(00):00.

Em resumo (Obesidade): O PREVENT (calculado com HbA1c) ajuda a decidir qual classe de medicamento antiobesidade é mais indicada para aquele paciente, focando na redução de risco CV.

Pontos de Atenção (Limitações no Brasil)

Embora seja o novo padrão, o PREVENT tem limitações que o médico deve conhecer:

  1. Limites de Aplicação: O escore não foi desenhado para pacientes com IMC acima de 40 kg/m2 (que já são de alto risco) , nem para idades fora da faixa de 30-79 anos.
  2. Risco de Subestimação: O documento original já alertava que o PREVENT pode subestimar o risco em alguns subgrupos, como mulheres.
  3. Validação Nacional: As próprias diretrizes brasileiras (ex: Aterosclerose) salientam que o PREVENT, assim como os escores anteriores, não possui dados populacionais brasileiros em sua derivação. Isso significa que o risco real na nossa população pode estar subestimado.

Conclusão

O Escore PREVENT foi totalmente integrado à prática clínica pelas novas diretrizes brasileiras de 2025. Ele deixa de ser apenas um cálculo e passa a ser uma ferramenta decisória essencial que define:

  • Em Hipertensão: O limiar para iniciar terapia medicamentosa em pré-hipertensos.
  • Em Aterosclerose: As metas de LDL-c e a necessidade de reclassificação com CAC ou Lp(a).
  • Em Obesidade: A escolha da classe farmacológica com foco na saúde metabólica (usando HbA1c no cálculo).

Bibliografia:

1- Brandão, Andréa Araujo; Rodrigues, Cibele Isaac Saad; Bortolotto, Luiz Aparecido; Armstrong, Anderson da Costa; Mulinari, Rogério Andrade; Feitosa, Audes Diógenes de Magalhães; Mota-Gomes, Marco Antonio; Barbosa, Eduardo Costa Duarte; Moura Neto, José Andrade; Neves, Mario Fritsch Toros; Weimar, Kunz Sebba Barroso; Forjaz, Claudia Lucia de Moraes; Klein, Márcia Regina Simas Torres; Nobre, Fernando; Jardim, Paulo César Brandão Veiga; Amodeo, Celso; Paula, Rogério Baumgratz de; Ferreira Filho, Sebastião Rodrigues; Gemelli, João Roberto; Vilela-Martin, José Fernando; Muxfeldt, Elizabeth Silaid; Mion Júnior, Décio; Malachias, Marcus Vinicius Bolivar; Machado, Carlos Alberto; Almeida, Fernando Antonio de; Lucena, Alexandre Jorge Gomes de; Avezum, Alvaro; Amaral, Amaury Zatorre; Moura, Ana Flavia; Camargo, Ana Lúcia Rego Fleury de; Abreu, Andrea Pio de; Sposito, Andrei C.; Pierin, Angela Maria Geraldo; Paiva, Annelise Machado Gomes de; Laurinavicius, Antonio Gabriele; Poli-de-Figueiredo, Carlos Eduardo; Souza, Dilma do Socorro Moraes de; Freitas, Elizabete Viana de; Lima Júnior, Emilton; Campana, Erika Maria Gonçalves; Argenta, Fábio; Colombo, Fernanda Marciano Consolim; Polacchini, Fernanda Salomão Gorayeb; Borelli, Flavio Antonio de Oliveira; Plavnik, Frida Liane; Silva, Giovanio Vieira da; Guerra, Grazia Maria; Lopes, Heno Ferreira; Barreto Filho, José Augusto Soares; Toledo, Juan Carlos Yugar; Lotaif, Leda Aparecida Daud; Costa, Lílian Soares da; Magalhães, Lucelia Batista Neves Cunha; Drager, Luciano Ferreira; Martin, Luis Cuadrado; Scala, Luiz César Nazário; Magalhães, Maria Eliane Campos; Pinheiro, Maria Eliete; Teixeira, Maria Emília Figueiredo; Dinamarco, Nelson; Moreira Filho, Osni; Passarelli Junior, Oswaldo; Coelho, Otavio Rizzi; Ribeiro Júnior, Renault Mattos; Miranda, Roberto Dischinger; Bezerra, Rodrigo; Pedrosa, Rodrigo Pinto; Okawa, Rogério Toshiro Passos; Povoa, Rui Manuel dos Santos; Cardoso, Sandra Lia do Amaral; Inuzuka, Sayuri; Kaiser, Sergio Emanuel; Silva, Sheyla Cristina Tonheiro Ferro da; Shecaira, Tânia Plens; Koch, Vera Hermina Kalika; Nadruz, Wilson. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq. Bras. Cardiol., v. 122, n. 9, e20250624, out. 2025.

2- Rached, Fabiana Hanna; Miname, Marcio Hiroshi; Rocha, Viviane Zorzanelli; Zimerman, André; Cesena, Fernando Henpin Yue; Sposito, Andrei Carvalho; Santos, Raul Dias dos; Behr, Paulo Eduardo Ballvé; Bianco, Henrique Tria; Alves, Renato Jorge; Faludi, André Arpad; Coutinho, Elaine dos Reis; Fonseca, Francisco Antonio Helfenstein; Carvalho, Luiz Sérgio Fernandes de; Bertolami, Adriana; Rocha, Aloísio Marchi da; Marte, Ana Paula; Chagas, Antonio Carlos Palandri; Caramelli, Bruno; Polanczyk, Carisi Anne; Ferreira, Carlos Eduardo dos Santos; Serrano Junior, Carlos Vicente; Araujo, Daniel Branco de; Moriguchi, Emilio Hideyuki; Pinto, Fausto J.; Moreira, Humberto Graner; Back, Isabela de Carlos; Faria Neto, Jose Rocha; Maia, Kleisson Antônio Pontes; Bertolami, Marcelo Chiara; Assad, Marcelo Heitor Vieira; Izar, Maria Cristina de Oliveira; Barreto, Mauricio Alves; Barreto, Natasha Slhessarenko Fraife; Silva, Pedro Gabriel Melo de Barros e; Pimentel Filho, Pedro; Maranhão, Raul Cavalcante; Kaiser, Sergio Emanuel; Machado, Valeria Arruda; Saraiva, Jose Francisco Kerr. Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025. Arq. Bras. Cardiol., v. 122, n. 9, e20250640, out. 2025.

3- Saraiva, José Francisco Kerr; Valerio, Cynthia M.; Rached, Fabiana H.; Sande-Lee, Simone Van de; Giraldez, Viviane Z. Rocha; Valente, Fernando; Drager, Luciano F.; Halpern, Bruno; Silva Junior, Wellington S. da; Trujilho, Fabio R.; Dornellas, Neuton; Silva Filho, Ruy Lyra da; Salles, João Eduardo N.; Assad, Marcelo H. V.; Mancini, Marcio C.; Miranda, Paulo A. C.; Moreira, Rodrigo O.; Lamounier, Rodrigo N.; Kaiser, Sergio E.; Bertoluci, Marcello C.. Diretriz Brasileira Baseada em Evidências de 2025 para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares e Complicações Associadas à Obesidade: Uma Declaração de Posicionamento de Cinco Sociedades Médicas. , v. 00, n. 00, p. 00-00, set. 2025.

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